No seu infatigável ir e voltar, as “naus da Índia” não carregavam, para a Europa, apenas escravos e especiarias. Louças, panos, tapetes, lacas, marfins, pratas, madeiras exóticas, âmbar, gemas, entre um sem número de outras matérias-primas e confecções, foram incessantemente descarregadas em Lisboa, durante o séc. XVI e boa parte do seguinte.

Os móveis ocuparam lugar importante nessa lista imensa de bens transaccionados entre Oriente e Ocidente, por intermédio dos portugueses. De início, foram os preciosos e esquisitos modelos tradicionais da China, do Japão e da Índia, mas, em breve, por efeitos de uma rápida aculturação estimulada pelo crescente volume de encomendas, novas formas e estéticas foram introduzidas, dando lugar a produções de grande criatividade e originalidade.

A forma de expressão mais consistente e duradoura foi o indo-português, considerado como um estilo próprio e devido tanto a artistas portugueses como indianos. Formas e decorações combinam como perfeito à-vontade funcionalidades, tradições e gostos próprios de cada cultura ou ainda de outras por ambas veiculadas.

Entre os diversos tipos de móvel, alguns dos quais formam categorias bem definidas e inconfundíveis como armários, mesas, cadeiras e leitos, outros há que facilmente se prestaram a composições híbridas ou que, pela sua dimensão ou peculiaridade formal se tornam difíceis de classificar. É disso exemplo a arca-contador que destacámos na colecção do MNMC.

A arca, enquanto categoria, é um dos móveis mais antigos e simples. No entanto, nem sempre a palavra designou a mesma forma – no séc. XIV, no ocidente, chamava-se arca à caixa de tampo arqueado. Mais tarde, a distinção desapareceu e, dentro de casa, esse móvel de guardar, que também se podia designar como cofre, repousava, em geral, sobre um estrado. Em muitos casos, a arca desempenhava, ainda, a função de banco, uma boa razão para o abandono do tampo convexo.

Quando se viajava, o cofre, sempre dotado de fechadura e pegas, tomava o nome de baú ou mala. Paralelamente, desenvolveu-se o pequeno cofre, para jóias e outros pequenos valores, nos mais diversos materiais e feitios.

Em Itália, a par da arca surgiu, no séc. XV, o contador, embora alguns especialistas sustentem que a sua origem se deve procurar muito mais longe, no Extremo Oriente, onde a data e o lugar do seu fabrico inicial se desconhecem.

Um contador é um móvel de pequena ou média dimensão, formado por um conjunto de gavetas, que assenta sobre outro corpo. As gavetas podem ficar à vista ou resguardadas por uma tampa de levantar ou, em data tardia no séc. XVII, por duas portas.

Em termos práticos, um contador é um cofre e, como tal, um objecto feito de materiais de alto preço, ricamente decorado. Na produção indo-portuguesa há contadores feitos em madeira de teca, angelim, sândalo, ébano, pau-santo, sissó, e as decorações vão do marchetado ao relevo por entalhe, passando pelos fabulosos rendilhados de marfim.

É, sobretudo, essa decoração luxuriante que faz o interesse maior do indo-português, no qual um substrato comum, de origem islâmica, se cruza com a tradição indiana e a influência persa.