Em resposta aos ataques dos reformadores protestantes, a igreja católica viu-se obrigada a restaurar a disciplina religiosa e a dinamizar a fé entre as populações.

A partir do Concílio de Trento, realizado em 1549-63, Roma ditou uma profunda renovação dos dogmas, da liturgia e do trabalho pastoral que, naturalmente, se fez sentir em todos os aspectos da vida cultural, atingindo a sua máxima expressão durante o séc. XVII.

Para o sucesso dessa política contra-reformista muito contribuíram as Ordens religiosas, entre as quais sobressaiu a Companhia de Jesus, quer pela sua actuação na Europa, quer sobretudo pelo missionarismo desenvolvido no Oriente e no Brasil.

É neste contexto geral que se insere o relicário de S. Francisco Xavier, alusão directa ao milagre atribuído ao santo missionário, mas no qual se pode ler uma mensagem mais profunda - o triunfo da fé cristã, pela mão dos jesuítas, contra as maiores adversidades.

S. Francisco Xavier foi um dos mais notáveis membros da Companhia, juntando-se desde cedo ao seu fundador, Inácio de Loiola. Depois de formado em artes e teologia, pela Universidade de Paris, foi ordenado sacerdote e, a pedido de D. João III de Portugal, enviado como legado do Papa para o Oriente, do qual se pode considerar o grande apóstolo. Aí faleceu em 1552, diante de Cantão, quando se propunha iniciar a evangelização da China.

Para trás ficava o seu infatigável trabalho na Índia, em Malaca, nas Molucas e no Japão, e os milagres que lhe atribuíram.

As origens dos relicários remontam ao séc. V, quando se impôs o culto das relíquias. Embora tenham conhecido grande popularidade durante o período gótico, estes pequenos templos portáteis tornaram-se, ao longo do séc. XVII, um instrumento privilegiado de propagação do misticismo que Roma pretendia incutir nas almas e, ao mesmo tempo, uma excelente oportunidade para escultores e ourives darem largas à sua criatividade.

São, com efeito, muitos os tipos que os relicários então apresentam e, dentro de cada tipo, inúmeras as variantes formais e decorativas. Entre os mais simples, está a cruz-relicário, uma forma directamente derivada da chamada cruz de assento, isto é, de pousar sobre o altar ou outra superfície equivalente.

A cruz-relicário do Santo Xavier, como é nomeado na inscrição que possui, é uma peça notável de concepção e qualidade técnica, para a qual não existe paralelo. Compõe-se de uma cruz latina, singelamente moldurada na frente e lisa nas costas, onde se guarda a relíquia, e de uma base em forma de caranguejo erguido sobre as seis pastas.

É difícil saber o que mais admirar neste objecto – a originalidade e fantasia da concepção, o rigor do desenho ou o naturalismo do crustáceo. Apenas uma certeza, é um objecto mágico, pleno de simbologia facilmente intuída pelo crente.

A ausência de marcas não permite conhecer a oficina que produziu esta peça, mas isso não põe em dúvida a sua origem nacional, provavelmente lisboeta.

Quanto à sua cronologia, nada obsta a situá-la na primeira metade do séc. XVII, sendo tentador relacioná-la com a data da canonização do santo, ocorrida em 1622.