A Virgem-relicário, toda de prata delicadamente lavrada e dourada, reveste-se de carácter excepcional nas colecções portuguesas de ourivesaria medieva em que as esculturas de vulto redondo são raras.


Além da beleza da graciosa postura e da expressão de contida alegria que emana do rosto, esta representação da Virgem segurando o Menino dá-nos uma ideia fiel da moda feminina, em voga na corte, na primeira metade do séc. XIV.

Com 86cm de altura, tem uma dimensão, invulgar em ourivesaria, que favorece o tratamento realista do mais ínfimo pormenor, seja nos tecidos das vestes e no cabelo, seja no firmal ou nos anéis que a adornam.

O colar de granadas é, seguramente, um ornato posterior, que enriquece mas prejudica a harmonia original. Também a pomba que o Menino segura corresponde a um acrescento em data incerta.

É curiosa a maneira algo artificial - talvez simbólica - como se aparta o manto, desenhando uma oval em que se inscrevem o peito e o ventre da Senhora, bem como o cinto que os separa e onde se repetem alternadamente as armas de Portugal e Aragão, as duas pátrias de Isabel. O Menino contribui com seu gesto, da mão direita, para sublinhar a importância do seio materno que dá guarida à relíquia.

Técnica e esteticamente, esta peça reflecte os avanços que a escultura de pedra e madeira conheceu a partir de trezentos, sendo impossível – ao olhá-la –, não recordar as Virgens que fez Mestre Pero, o escultor (catalão ou aragonês) que a rainha trouxe para Coimbra, onde divulgou uma nova sensibilidade artística, influenciada pelo gótico praticado em França.

A cruz processional combina o jaspe sanguíneo com o dourado da prata e o azul das pedrarias, excelente moldura para o tema cristológico representado no cruzamento dos braços da cruz. De um lado, o Calvário, no outro, Cristo rodeado pelos símbolos dos evangelistas.

Em termos formais, esta cruz tem a maior importância, pois há pormenores na sua estrutura – em especial o nó sextavado – que irão influenciar a ourivesaria contemporânea e do século seguinte.

O relicário de Santo Lenho, feito de prata e coral, decorado de esmaltes coloridos, é uma peça insólita, sem qualquer paralelo quanto à forma e carregada de simbolismo e evocações. Infelizmente, perderam-se as três imagens de Calvário que o coroava – Cristo, S. João e a Virgem.

O coral mantém a sua forma natural, atormentada de “árvore marinha”, a que se atribui o dom da longevidade.

Paradoxalmente, é uma forma frágil o que explica a necessidade dos reforços metálicos que se observam e dos quais o ourives tirou partido estético.

Além destas peças que integraram a capela privativa da rainha, há um pequeno colar formado por oito placas polilobadas, guarnecidas de gemas e unidas por cadeias, igualmente de ouro, por sua vez ornadas de pérolas barrocas.

Segundo a tradição, isto é a parte sobrante de um colar de Santa Isabel que, por ter dotes milagreiros, foi sendo danificado e diminuído por doentes – sobretudo parturientes – ansiosos por um fragmento que os protegesse como uma relíquia santificada.