O que resta são dois painéis correspondentes aos volantes do tríptico e um fragmento do painel central. Os temas que as faces internas apresentam – Flagelação , à esquerda do observador e Ecce Homo , à direita – conjugados com a Virgem Dolorosa , conservada no fragmento, permitiram identificar a temática geral – Paixão de Cristo .

Da comparação com outros Calvários do mesmo pintor, chegou-se a uma restituição temática bastante convincente. A posição da cabeça e das mãos da Virgem é idêntica à da mesma personagem representada na Lamentação , igualmente da autoria de Metsys, que se expõe no Museu do Louvre em Paris.

A face exterior dos volantes mostra uma Anunciação , referência ao primeiro momento da vida terrena de Cristo que o tríptico oferecia aos crentes, quando se encontrava fechado.



Não é fácil perceber o que provocou a destruição parcial do tríptico, com particular incidência sobre o painel central. Uma hipótese plausível é que tenha estado sempre encostado a uma parede muito húmida, com os volantes normalmente abeertos. Um registo pintado nas costas do fragmento diz que “ESTA OB[R]A MANDOU FAZE[R] À S[E]N[HO]R[A] D. M[ARIA]: PR[I]V[RE]ZA À SVA CVSTA EM A[SSA]M E GRASSAS. POR A […] LIVRADO 4R […]S: DA MORTE […] DE […]”. Consistiu essa obra em afeiçoar a tábua e retocar a pintura, de modo produzir um ex-voto de forma ovalada.

Embora se desconheça a data exata do episódio, presume-se, pelo desenho da letra, que ele ocorreu no século XVII.

Nascido em Lovaina, em 1466, Quentin Metsys cedo se estabeleceu em Antuérpia, onde teve uma das oficinas mais importantes e produtivas do seu tempo.

As ligações políticas e comerciais que Portugal manteve com os Países Baixos ao longo do sécolo XV – e que D.Manuel viria a aprofundar em 1499, instalando a feitoria de Antuérpia – cedo contribuíram para a importação de pintura flamenga, quer por iniciativa da casa real, quer por encomenda (ou aquisição no mercado livre de obras de arte) do alto clero, de nobres e negociantes abastados.

O gosto dos portugueses pela arte da Flandres, nomeadamente a pintura, manteve-se até tarde e Quentin Metsys parece ter sido um dos mestres preferidos pelo mecenato áulico e pelos próprios artistas nacionais que, direta ou indiretamente, nele buscavam ensinamento. Sabe-se, por exemplo, que em 1504 tinha na sua oficina um certo português, de nome Eduardo, que chegou a mestre registado na confraria de S. Lucas de Antuérpia.

Prova desse apreço é a encomenda que o rei D. Manuel faz do tríptico da Paixão de Cristo para as clarissas de Coimbra e a influência que esta obra vai exercer, uma década depois, na conceção do retábulo pintado, na mesma cidade, para o Mosteiro de Santa Cruz. Foi seu autor Cristóvão de Figueiredo, um dos melhores artistas do seu tempo e o que mais se aproxima da fase final do flamengo, na qual se deve situar o Tríptico da Paixão .

Com efeito, no exagero das formas e das expressões, esta obra traduz bem a adesão, ainda que moderada, de Metsys e da sua oficina, à nova estética – La nuova maniera – vinda de Itália, rompendo com a harmonia da expressão renascentista.