De proveniência ainda não esclarecida, a “Senhora da Rosa” deu entrada no museu em 1915. Guardava-se, até essa data, no Colégio universitário de S. Jerónimo em Coimbra.

Curiosamente, a temática da rosa teve grande expressão, até ao séc. XV, no Baixo Mondego, como testemunham diversas esculturas feitas de calcário de Ançã.

À data da incorporação, a “Senhora da Rosa” era outra, apresentando-se como uma pintura do séc. XVI. A Virgem, em majestade, ocupava um imponente trono, de feição renascentista, que preenchia o espaço quase todo, em perfeita simetria.

Atrás do trono, apenas se representava um lambril.

Nossa Senhora estava coroada e dois anjos planavam sobre ela, sustentando uma filactera.

Composição, cor e pincelada concorriam para que esta pintura a óleo, sobre madeira, fosse atribuída à segunda metade do séc. XVI. Infelizmente, hoje, dela resta apenas uma fotografia a preto e branco e uma radiografia.

O que sucedeu, então, que justifique tal perda e metamorfose, é a pergunta que ocorrerá ao leitor.

Em 1950, o painel encontrava-se muito deteriorado, quer ao nível do suporte, quer ao da camada cromática, dando por isso entrada no Instituto José de Figueiredo – à data, a única oficina de restauro a operar oficialmente, como anexo do Museu Nacional de Arte Antiga. Feitos os exames e sondagens prévios à intervenção, concluiu-se que a pintura mais não era do que a retoma de uma composição anterior, que se revelava quase intacta.

Após longas considerações, ouvidos os especialistas, foi decidido o levantamento da pintura quinhentista para recuperar a primeira, dadas as suas características góticas e o escasso número de pintura retabular portuguesa desse período.

A reutilização de painéis para dar lugar a um novo programa iconográfico ou, conservando o tema, adaptá-lo a um novo gosto, foi uma prática relativamente frequente. Neste caso, o que parece mais interessante é a motivação que terá conduzido à encomenda do séc. XVI.

A comparação entre as duas obras leva a supor que a metamorfose obedeceu a razões dogmáticas, decorrentes do Concílio de Trento que teve a sua última sessão em 1563. Visava a Igreja combater a Reforma luterana por meio de uma contra-reforma revitalizadora da fé, moralizadora e catequética, expurgando da prática religiosa tudo o que pudesse ser mal interpretado.

Assim, foi a pintura do séc. XV corrigida. Libertada do que era terreno, a Virgem surgia aos olhos dos fiéis em todo o seu esplendor de rainha do Céu. Mãe imaculada do Menino Deus, como a rosa simbolizava, e soberana.