Designada como pintura têxtil por ilustrar cenas como se simulasse pintura, a tapeçaria é uma arte de origem oriental que conhecerá grande expansão na Europa ao longo da Idade Média. No séc. XIV, a tapeçaria atinge maior esplendor em França, onde se destacam Paris e Arras, estando esta última cidade na origem da tradicional denominação de “pano de raz”. Na segunda metade do séc. XV, é na Flandres (atual Bélgica) que se situam as oficinas mais importantes, passando o primeiro lugar a ser disputado com a Itália no século seguinte.

As tapeçarias decoravam tendas, aposentos de palácios reais ou casas nobres, ornamentavam igrejas e conventos; serviam para embelezar cerimónias e festas públicas e privadas, e até para engalanar navios. O facto de serem feitas num material pouco rígido facilitava o seu transporte, mas apressava a sua própria degradação, razão pela qual existem poucos exemplares.


Exemplar único da coleção, a tapeçaria flamenga do Museu Nacional de Machado de Castro foi realizada cerca de 1530-40, numa oficina de Bruxelas, conforme as duas marcas incompletas que se podem observar no canto inferior direito.

Nela se conta uma história baseada num mito da Antiguidade Clássica – Vulcano surpreende Vénus e Marte – já referida em edições de Hesíodo e de Homero, posteriormente adaptada por Ovídio na sua obra Metamorfoses .

De acordo com a mitologia, a formosa Vénus nasceu da espuma das ondas. Para acalmar as inúmeras e arrebatadoras paixões que despertava no seio dos deuses, Júpiter decidiu casá-la com Vulcano, o enjeitado deus do fogo e das forjas. Contudo, o casamento não a impediu de manter uma ligação extraconjugal com Marte.

O deus da guerra tinha escolhido Alectrião para sentinela, incumbido de dar o alerta mal o sol nascesse, impedindo assim que os seus encontros secretos com Vénus fossem descobertos.

Contudo, certo dia, Alectrião e Cupido adormeceram e Hélio – o deus sol “que tudo vê e tudo ouve” – rapidamente avisou Vulcano. Transbordando raiva e ciúme, este decidiu desacreditar o par apaixonado, tratando de forjar correntes de ferro “impossíveis de quebrar ou deslaçar”, de modo a amarrar os adúlteros, expondo-os ao olhar dos outros deuses, para que estes pudessem testemunhar tão pecaminosa infidelidade.

Humilhado, Marte jura vingança e transforma Alectrião num galo para que este passe a anunciar o nascer do sol, todos os dias, de forma pontual!

Nas tapeçarias flamengas eram habituais as representações botânicas, adotadas quer pela sua beleza ornamental, quer pela sua importância simbólica que reforçavam a história narrada, ou que podiam ainda revelar, pelo seu exotismo ou raridade, a consideração económica e social do seu proprietário.

Poderá ser esse o caso da abóbora, símbolo de abundância e de fecundidade, igualmente referência a uma nova planta introduzida na Europa com a recente descoberta do continente americano. A laranja, o marmelo, a pera, a romã e a maçã são frutos dedicados a Vénus, símbolos do amor e da felicidade. A rosa é considerada a sua flor por ter aparecido ligada ao seu nascimento. O carvalho era uma árvore sagrada, cujos bosques eram dedicados pelos romanos a vários deuses.

Esta obra de arte pertenceu à Sé de Coimbra. Pode parecer extraordinário que esta cena profana adornasse o espaço sagrado de uma igreja. A verdade é que dela se tirava um exemplo moral, neste caso, o dever de fidelidade às pessoas e aos compromissos.

* Este artigo é dedicado à memória da nossa querida amiga Teresa Almeida, antiga docente e investigadora do Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que principiou o estudo desta peça há já alguns anos, partilhando generosamente os dados compilados, apesar de nunca ter conhecido os seus resultados finais.

Nota de relevo ainda para a mais recente e aprofundada investigação sobre esta tapeçaria flamenga – “O sol que tudo vê na Tapeçaria de Vénus e Marte do Museu Nacional Machado de Castro” – realizada por Luísa da Nazaré Ferreira, docente e investigadora do Instituto de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – separata de um artigo publicado na revista Biblos , vol. VI (2ª Série), Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2008.