Do escultor que, em 1530, assinou contrato com o abade-geral do mosteiro de Santa Cruz, para fazer uma Ceia de Cristo destinada ao refeitório novo, apenas se sabe que era francês e se chamava Hodart. A investigação feita até hoje não permite atribuir-lhe, com segurança, obra executada fora de Portugal. Cá dentro, alguns historiadores da arte reconhecem a sua marca em dois retratos lavrados em calcário, conservados em Góis e Trofa do Vouga, e várias esculturas numa capela em Braga. Todas estas obras terão sido feitas entre 1529 e 1539, de acordo com a história dos monumentos.

Concluída a Ceia em 1534, Hodart ainda foi pago nos dois anos seguintes para fazer um Menino Jesus e outras imagens para o mosteiro. Desapareceram. Ao artista também se perdeu o rasto. Quem terá recomendado este escultor a Frei Brás de Braga, o abade-geral? Porquê preferir o barro ao calcário de Ançã tão apreciado por todos, em todo o país? Uma nota escrita em 1622, a propósito dos artistas que naquele tempo tinham trabalhado em Santa Cruz, diz que entre os oficiais havia um “mui esmerado em obras de barro o qual fez a Ceia… Chamava-se Udarte, em barro era oficial primo”. Os cem ducados de ouro que recebeu mostram que se tratava de um artista de grande mérito. O próprio Hodart declarou que eram uma quantia generosa! A escultura de terracota, à escala monumental, estava em voga desde meados do séc. XV, sobretudo em Bolonha, uma região rica em argilas e onde não havia mármore, mas também noutras regiões da Itália e da França. E não faltavam representações em barro da Última Ceia de Cristo. Talvez o barro fosse utilizado simbolicamente, para mostrar que a humanidade é frágil, numa alusão ao Velho Testamento quando diz que o Senhor formou o homem do pó da terra…


Desconhece-se onde se terá formado Hodart. Porém, o tratamento realista e minucioso das personagens que integram a Ceia é próprio de um artista formado no espírito do renascimento que Albrecht Dürer ajudou a divulgar, sobretudo através das suas gravuras. O alongamento das figuras, a sua exuberante plasticidade, a expressividade dos gestos e dos rostos mostram, por outro lado, que Hodart estava familiarizado com “la nuova maniera” em que alguns artistas exprimiam a sua recusa de um idealismo completamente desligado dos dramas vividos pela sociedade contemporânea. Rafael, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo são os grandes nomes fundadores da nova estética maneirista – que, a partir do primeiro quartel do séc. XVI, se difundiu na Europa – dos quais Hodart colheu inegável ensinamento e inspiração.

Na descrição da Ceia do refeitório de Coimbra, feita em 1541, pelo frade agostinho D. Francisco Mendanha, lê-se que a cena se desenrolava numa capela rematada por um arco quadrado lavrado de molduras. O primeiro plano era ocupado pela mesa, atrás da qual se sentava Cristo, ao centro, benzendo com a mão direita um “cálice diviníssimo” que segurava com a mão esquerda. Junto a ele, as imagens de S. João, em idade de 18 ou 20 anos, e de S. Pedro aparentando 50. Todas as outras figuras se repartiram a seguir a estas, de uma e outra parte, até chegar ao arco onde terminava a mesa, no fim da qual estava Judas com sua bolsa. A exacta disposição das personagens escapa-nos, apesar daquela descrição, pois somente as quatro nomeadas são identificáveis, neste conjunto de figuras agitadas e perplexas perante o anúncio do Mestre, de que um deles o iria trair.