De ascendência normanda, João de Ruão foi o grande divulgador da estética renascentista em Portugal, onde chegou em 1528. Se é certo que, antes dele, Nicolau Chanterene abrira caminho para a adopção do espírito do renascimento italiano e das suas fórmulas, bem patentes nas obras executadas no mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, e no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi à fixação de Ruão nesta cidade e ao magistério exercido na sua oficina que se ficou a dever a escola renascentista coimbrã.

Pouco depois da sua instalação na parte alta da cidade, onde muito cedo casou João de Ruão fez parte do grupo de artistas famosos que trabalharam no embelezamento da igreja do mosteiro de Santa Cruz.

O tema da deposição de Cristo no túmulo, bem como a sua variante conhecida como “Lamentação sobre o Cristo morto” deram lugar a extraordinárias obras de arte, sobretudo, a partir do renascimento italiano, na segunda metade do séc. XV.

O conjunto concebido para Santa Cruz integra-se na primeira fase do trabalho desenvolvido por João de Ruão, em Coimbra, a qual termina em 1540. Caracteriza-a uma expressão clássica, requintada, de grande perfeição e harmonia, em contraste com o longo período de quarenta anos que se segue até ao encerramento da oficina, correspondente a uma produção heterogénea na qual realizações de grande qualidade têm a mesma data de obras menores. É uma realidade que só pode explicar-se pela necessidade de uma resposta expedita às numerosas encomendas que a oficina recebia e que não se limitavam à região do Mondego.

Dotado de grande talento para a arquitectura, João de Ruão dotou Coimbra de obras notáveis como a “Porta Especiosa” da Sé ou o claustro de Santa Cruz, dito “da Manga”, ou a “Capela do Tesoureiro”.

Pormenor da Deposição no Túmulo

Também a “Deposição de Cristo” que hoje vemos como peça autónoma, estava originalmente integrada num conjunto arquitectónico de belas proporções e finos lavores, de que restam no local vestígios, actualmente desprovidos de sentido.

Ainda assim, o painel de fundo onde pairam dois anjos, transportando o véu que há-de cobrir Cristo, felizmente conservado, faz um perfeito enquadramento da cena, acentuando-lhe o eixo de simetria e a suave ondulação do corpo morto, também ele suspenso no seu sudário.

As atitudes de S. João, da Virgem e das santas mulheres que os acompanham emprestam à figuração o colorido vívido de uma narrativa. Angústia, compaixão, arrependimento, resignação, fidelidade, fé - todo um misto de sentimentos que os artistas do renascimento aprenderam a transmitir com realismo para melhor poderem transmitir aos crentes a mensagem de Cristo.

João de Ruão individualiza as personagens, nos gestos e nos sentimentos profundos que os seus rostos espelham, agarra-nos de imediato na forte tensão que os une na mesma dor imensa, mas faz tudo isso de forma contida, serena, profundamente espiritualizada.