Elegendo o Museu como o lugar poético da memória, a rúbrica #versoREverso da obra de arte publicada em cada domingo, constitui-se como um encontro entre a obra de arte e a palavra poética, lançando um outro olhar sobre algumas obras de referência do MNMC.

HOJE, apresentamos uma obra-prima da ourivesaria do século XII - o Cálice, uma oferenda de D. Gueda Mendes ao Mosteiro de S. Miguel de Refoios, que integra, atualmente, a exposição permanente do MNMC, inspirador da poesia de João Miguel Fernandes Jorge declamada por Cândida Ferreira.

'Cálice'

Para Francisco Vale e Vasconcelos

Deixou os dedos perderem-se

no tempo que foi o da taça

na juba do leão de Marcos

na asa do anjo que figura Mateus

no ouro que desprende mais brilhos nos cornos do touro de Lucas

para depois sentirem a lonjura na águia de João.

D. Gueda Mendes, Senhor que foi

em Terras de Basto nos anos primeiros do reino

ao Abade do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, o cálice

fez em oferenda. Quando o vaso doou

ecoaram no Capítulo –

nenhum santo nenhum sábio

pode evitar o céu

desde tempos antigos

a terra dá-nos um destino

visto haver vida há que morrer

E os dedos demoraram no relevo da prata dourada.

João Miguel Fernandes Jorge

Cálice | Séc. XII | MNMC6030

Este cálice de prata dourada foi uma oferenda de D. Gueda Mendes ao Mosteiro de S. Miguel de Refoios. Obra-prima da ourivesaria do séc. XII, quer pela proporcionalidade e depuração das formas, quer ainda pela riqueza do programa iconográfico, representa, na copa, Cristo e os Apóstolos e, no pé, os símbolos dos evangelistas: S. Marcos é o leão; S. Mateus, o anjo; S. Lucas, o touro e S. João, a águia.

As figuras, bem como os seus enquadramentos, ao gosto românico, são executadas num relevo pouco acentuado que igualmente se observa nas legendas que contornam o bordo e a orla do pé. Este cálice utiliza um programa decorativo profuso, sem paralelos nacionais, em que a representação figurativa prevalece sobre a geométrica ou vegetalista.

Assista ao vídeo aqui: