10h00 – 13h00
Maria de Lurdes Craveiro
Maria Bochicchio
António Cerdeira


Três objetos, três olhares.
O Museu Nacional de Machado de Castro propõe para o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios a observação de três momentos distintos: no primeiro, a partir dos contributos da investigação histórica e arqueológica, dará visibilidade a uma estrutura fundamental da cidade romana de Aeminium quase desconhecida do público em geral; no segundo, partindo da interpretação artística contemporânea, revisita a figura de Luís de Camões; o terceiro, num exercício de cidadania ativa e informada, centra-se sobre a loggia, imagem de marca do Museu e um dos elementos mais emblemáticos da história transversal do edifício.

O confronto de três olhares diferentes aposta, assim, na interpretação do modo multifacetado como o ser humano interage com o património e, nesse processo, o reconstrói permanentemente. Ao requisitá-lo na constante fabricação da sua identidade, reposiciona o seu olhar e, dessa forma, a visibilidade e atenção que lhe concede.

Refletir sobre estas forças que agem em maior ou menor equilíbrio ou tensão significa também questionar e compreender os mecanismos (físicos e intelectuais) de enaltecimento ou apagamento das memórias que conduzem (muitas vezes de forma mutilada, fracionada, comprometida...) ao que é hoje ser cidadão em Coimbra.


A cloaca maxima de Aeminium

Elemento fundamental da rede de saneamento, a cloaca reflete, apesar da sua invisibilidade, a forma como a cultura da água moldou a vivência na cidade romana. O MNMC integra os registos que permitem visualizar, não apenas a grande estrutura arquitetónica de assentamento do forum de Aeminium, mas também os elementos materiais que podem captar o sentido mais amplo de cidade. Se a presença do criptopórtico se infiltra em nós como ideia de grandeza organizada, as evidências registadas e visíveis da cloaca romana, também enquanto expressão de vida, entrelaçam-se com essa ideia de cidade aparentemente distante e dissociada. A visita ao espaço reforça a perceção da dualidade entre o gigante “luminoso” do forum e o que, de forma discreta e subterrânea, tornava viável e operativa a cidade montada.



Refracções camonianas.

Esta exposição conquista um outro espaço de análise, revisitando uma das figuras míticas do Humanismo português. O desafio lançado aos artistas contemporâneos recupera a imagem sucessivamente (re)construída de Luís de Camões e submete-a a novo escrutínio indagativo e criativo. O resultado deste esforço interpretativo não se traduziu apenas num diálogo entre a contemporaneidade e um passado mais ou menos cristalizado; mostra, de uma forma muito viva, a sua capacidade de interferência no quotidiano e no presente. Mostra, também, a volatilidade de um passado sistematicamente recriado e adaptado e, por esta via, a própria vulnerabilidade da sua natureza em constante interpelação.



A loggia do Paço Episcopal.

Um dos elementos mais marcantes do Museu, a loggia quinhentista do Paço do Bispo é o ponto de partida para o terceiro momento desta iniciativa. Integrada na rubrica “Meia hora no Museu” constitui uma proposta da AMIC – Liga dos Amigos do MNMC, e acolhe, com a legitimidade da apropriação, a experiência dos afetos, na qual se ancora, afinal, a possibilidade do património.