HOJE, continuamos a folhear o #versoREverso da obra de arte e, no capítulo da coleção de escultura do MNMC, apresentamos a Pietà (MNMC1969), da autoria de Frei Cipriano da Cruz, uma das maiores realizações da escultura portuguesa de seiscentos, que inspirou a poesia de João Miguel Fernandes Jorge, declamada por Cândida Ferreira.

Pietà

O corpo não pertence à mãe

é ainda domínio do filho morto. O

corpo não se refere à natureza do divino

somente ao homem é estreme –

repouso do erro e ilusão sem os quais

nenhuma arte sabe viver

No corpo morto do filho não

há som nem forma não há cor nem o

olhar avança pouco a pouco p

lo interior das coisas. Indiferente

a todo o interesse

o corpo morto é agora, ainda mais,

abismo por revelar dos mundos

alvo sempre em movimento. Choro

sem visagem uma vela ilumina

em clarão descuidoso, picado a fumo.

A mãe, pertença desse filho no abandono

do corpo –

na feroz dor repousa a

natureza que vem do espírito

sem a qual nenhuma arte sabe morrer.

João Miguel Fernandes Jorge

Boa visita!

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