Elegendo o Museu como o lugar poético da memória, esta rúbrica, publicada em cada domingo, constitui-se como um encontro entre a obra de arte e a palavra poética, lançando um outro olhar sobre algumas obras de referência do MNMC.HOJE, apresentamos a escultura de vulto em calcário representando S. João Baptista, do século XVI (MNMC4091), concebida por João de Ruão para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que inspirou a poesia de Isabel Pires, declamada por Luís Moura Ramos.

‘João Baptista’

Nu. Pior que nu, está esfarrapado.

Pior que esfarrapado, está indiferente

ao olhar. Está longe das próprias vísceras,

e a viagem que faz perante nós

só tem partida. Os braços e as mãos

foram traídos pelo escultor, os pés em ferida

não têm mando ou destino,

é uma nuvem sem cor que o arrasta

sem fome nem sede nem desejo.

Não é no mundo dos vivos

que um dia irá morrer, apesar

da mão de Salomé, aquela que viu tudo

inalcançável. João transformou-se no deserto

e só ele caiu na eternidade – é esse o olhar

com que nos ignora, são esses os farrapos

que apodrecem.

A dor, a grande dor que não se vê,

é o alimento dos deuses

e dos homens.

Isabel Pires


Boa visita!

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