HOJE, na rúbrica #versoREverso da obra de arte, apresentamos a pintura 'Santa Maria Madalena' (c.1650 | MNMC2649), inspiradora da poesia de João Miguel Fernandes Jorge e declamada por Cândida Ferreira.Josefa d’Ayala, ou d'Óbidos, criou algumas das imagens mais reconhecíveis da História da Arte portuguesa. Fascinante pela sua condição de género, mas também pela individualidade do seu percurso artístico, foi uma mulher emancipada e culta, cuja fé reflete a espiritualidade do século XVII, expoente do Barroco português no ciclo que se seguiu à Restauração da Independência.

‘Santa Maria Madalena’

Não queiras que receba em

sofrimento. Não apareças nunca

nem me escolhas. É verdade

muitas vezes te procurei

quase sem conta

ao ardente entardecer desejei

teu lado.

Que tenho hoje para te oferecer?

O vento lá fora leva-te em

minha memória pelo escuro

penitente pl’abstração da noite

antes de embarcares na remota

viagem.

À luz desta candeia

erra em recado o

fantasma

de onde vinha? Desde

o que se esconde e protege

na crueza do sexo –

para o morrão da luz do

azeite me quiseste, vínculo que

estremece ao menor sopro

segreda verga o

junco na areia das dunas –

a esta luz temo

a erva do verão que nasce

à minha porta.

João Miguel Fernandes Jorge

‘Santa Maria Madalena’ | Josefa d’Óbidos | c.1650 | MNMC2649

Óleo sobre cobre proveniente do Convento do Louriçal. Tem sido considerada como uma das obras da juventude de Josefa d’Óbidos, hipótese atestada pela inscrição, no reverso, que identifica seu pai – Baltazar Gomes Figueira – como o proprietário deste ‘chapaz de cobre’.

Obra delicada, rica em cores, não obstante a penumbra geral, adota um vocabulário pictural que convida à penitência, primeira via para a redenção no período Proto-Barroco. Todos os elementos da obra se subordinam a essa mensagem catequética e manipulam o observador. O tema é o de uma pecadora convertida pelo dogma da fé, revelado na luz emanada pelo Crucifixo que, juntamente com a chama da candeia, banha a figura e a sua expressão, deixando na penumbra o que é secundário.

Os atributos reforçam a ideia: a caveira simboliza a meditação sobre as vaidades da vida; os cilícios, como expressão do arrependimento e da penitência, são um meio para chegar à Palavra Divina, transcrita na Bíblia, sobre a qual estão colocados.

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