A. Gonçalves, Enumeração das obras preparativas Para a instalação Do Museu Machado de Castro, Coimbra 1929, Tip. de "O Despertar".

"No enfraquecimento, em que o trabalho português e o gosto geral se encontram, um museu de Arte Industrial é a sadia panacêa, a despertar estímulos á inércia marasmada. Estas instituções, sob todas as formas e em variados ramos, reconhece-se serem propícios á educação publica e uncitarem a curiosidade, que esclarecem da maneira mais completa e facil. O Museu Machado de Castro, é certo que tem prestado ilucidações e paradigmas a marceneiros e entalhadores, etc.; mas está longe de ser aproveitado pelos operários, mesmo em relatividade comparativa com o de Cluny e outros. E faz pena o pensar como seriam fecundadas as apreciáveis qualidades nativas do operariado português, se fossem aquecidas pela instrução técnica e pela educação integral das modernas Universidades do trabalho em Charlerroy, na Bélgica, por exemplo. Era reconhecida a necessidade de desabrochar e expandir as faculdades profissionais. E foi norteado por esta crença, neste rumo e com este programa, o Museu M. de Castro, assim como os mostruarios empreendidos anteriormente.

Fig.1 António Augusto Gonçalves fundador do Museu Machado de Castro

Fig.1 António Augusto Gonçalves fundador do Museu Machado de Castro

Na actualidade existe a questão d’arte, que é das que neste momento mais preocupam os espíritos ilustrados. A divergência das opiniões é profunda e inconciliável. Os inovadores, á priori, partem do principio de que cada fase da civilização tem sido acentuada por uma forma de arte própria. E que, depois do abalo da Grande Guerra, uma nova escola deve estar em incubação.

Os progressos da sciencia teem realizado prodígios. A torre Eifel, as grandes pontes e viadutos, a Galeria das maquinas, o automóvel, o aeroplano, etc., não podem aceitar, como aspiração suprema, os velhos ideais, oriundos do mundo greco-romano, ou das tradições degeneradas da renascença…

Os esforços artificiosos para a eclosão da nova arte são condenados por uns e exaltados por outros. As tentativas até agora reveladas, como especimens de originalidade, devem ser considerados pruridos de mera convenção, sem raízes e sem germens de proliferação. Isto parece provar que nas sociedades modernas não existem energias espirituais e qualidades naturais, para a elaboração dum estilo espontâneo e de vigorosa genese.

Os exageros propostos ultrapassam as raias da extravagancia. E há amadores e críticos, que correm atraz das novidades…

Em extravios e desfalecimentos de senso comum, talvez se encontre, a meu ver, a explicação do fenomeno..

Depois de determinada a fundação de museus, em 1912, era de normal criterio, = e alguns ingénuos de boa fé assim acreditaram != que se procedesse á repartição equitativa dos artefactos do espolio das congregações religiosas extintas e dos domicílios reais.

Nunca mais se apresentará ocasião para coligir exemplares do trabalho nacional, de carácter e de estilo autentico. Os factos, porem, desmentiram a previsão.

Os claviculários e coleccionadores de influencia souberam governar-se; e os comerciantes de antiguidades tiveram banquete lauto!

Pela fronteira aberta, cuja fiscalização só tarde e negligentemente se exerceu, saíram centenas de volumes preciosos. As providencias policiais foram sofismadas.

O Ministério das Finanças, contrariamente às leis, poz em venda publica o mobiliário e objectos decorativos d’essas proveniências. O leilão durou muitos dias. Queimou-se tudo a baixo preço. Artefactos e livros, etc., tudo, que tinha estimação e valor, foi lançado á voragem!

Deram-se escândalos inacreditáveis…

E ficamos descançados!...

Etc., etc.

Como não tenho em mente erguer verrinas, lubrifico arestas e asperesas irritantes…

Fig.2 Cocheira do Pátio de Serviço

Fig.2 Cocheira do Pátio de Serviço

O publico com certesa, e muito racionalmente, imaginará que o paço episcopal se achava apto e desembaraçado a ser preenchido pelos objectos d’arte, sem outro embaraço, que não fosse a escolha dos lugares que deviam ocupar.

Que toda a tarefa organisadora não foi além do arranjo e disposição, mais ou menos pitoresca, das colecções.

Puro engano! E neste equivoca labora toda a gente! E’ preciso pôr as cousas a clara a claro, porque ninguém lucra com suposições erróneas.

Ninguém o informou das reformas e transformações, que eram necessárias á instalação planeada das cousas aqui domiciliadas.

E ninguém o informou, porque a imprensa mesmo parecia ignorar o que se passava.

No acto da inauguração um único jornalista apareceu, não obstante os convites individualmente endereçados a todos os noticiaristas e correspondentes.

A imprensa só conheceu a existência do Museu, quando caiu a fundo sobre o director, a propósito duma construção ligeira, para abrigo da Guarda Republicana, que, por vinte razões, não podia continuar a ser alojada no interior do edifício.

A longanimidade contrafeita, que me impuz e de que dei provas, iiritava os gazeteiros. E os protestos e ataques redobravam de fúria, cada vez mais contendentes e atrevidos!...

Quem, depois de dois decénios de ausência, entrasse hoje no terreiro, poderia verificar, com surpresa, a completa metamorfose.

Insisto neste ponto, porque a fundação do Museu consta de dois capítulos distintos e separados: a preparação material dos aposentos, para em seguida ser exequível a instalação do conteúdo, nos seus respectivos lugares.

Era notório que a Obra Publica dispendeu ali centenas de contos.

Fig.3 Salão do Paço utilizado como primeiro espaço expositivo do Museu, 1913

Fig.3 Salão do Paço utilizado como primeiro espaço expositivo do Museu, 1913

A ambição antiga do Bispo-conde Bastos Pina era possuir uma espaventosa sala de jantar, para oferecer banquetes a nobres e titulares, e declamar speechs á monarquia, em panegíricos solenes, de pontifical. Ele conhecia bem a sociedade em que vivia!...

Mas somente o corpo norte foi em grande parte reconstruído de novo.

Igualmente foram consolidadas e reintegradas a arcada e galeria ocidental.

É de crer que o projecto de reforma fosse mais extenso, porque, ao ser proclamada a Republica, no ângulo sudoeste, o tecto de vestíbulo tinha sido acabado, por empreitada. E a sala contigua, destelhada, dava a entender que, aos primeiro rumores da vitoria revolucionaria, os operários largaram o trabalho e debandaram.

Muito depois o Bispo-conde abandonou o seu palácio. Por sua libérrima vontade, porque não foi intimado; nem sequer a mais ligeira insinuação lhe foi dirigida.

Em fins de 1912, preteridas varias pretenções, foi finalmente o edifício cedido, para que ali fôsse domiciliado o Museu Machado de Castro, aproveitando o núcleo do Museu do Instituto, e ampliado com os mobiliários escolhidos nas casas congreganista femininas.

Não se pode conjecturar o estado de indecorosa imundície e assolador detrimento, em que se achava o edifício do lado sul.

No Museu estão expostos dois projectos de reforço da parede externa, planeada por ordem do Marquês de Pombal. Nenhum foi aproveitado, apesar da ruína eminente.

O perigo de desabamento era realmente para temer.

Foi necessário, para reforçamento das alvenarias, em cujo interior existiam soluções de continuidade numerosas e extensas, introduzir e gatea-las com quatro ferros havia á mão; preencher as inumeráveis lacunas com caldas de cimento, e tapar os interstícios, a dar coesão e consistência ao muro. Bastará dizer que num só desses oroficios foram despejados 80 litros de massa liquida, que correu a encher os espaços alveolares e fechar a temerosa ameaça.

Dentro destes enormes casarões, caverna imensa e sombria, onde o lixo em acumulação e recalcado, formando espessa crosta secular, vinha dos tempos das lutas civis, em que, creio eu, serviu de abrigo a forças milítares de cavalaria.

Os vizinhos ali depositavam, por concessão, tarecos inclassificáveis, incompletos e sórdidos e cousas inaproveitáveis. Alí deparei com um cavalo lazarento, como o de Tolentino! E um burro velho e esquelético, como o da parábola de Ramalho!...

Um andar intermédio, de pouco pé direito, teve de ser desmanchado para altear as janelas, que deitam para o pátio; e foram levantadas com o acréscimo que se nota nas cantarias das umbreiras.

Foi preciso abrir e dar forma regular e simétrica aos arcos; rebocar paredes; estucar oe tectos, depois de estendidos chavetões de ferro, a impedir desastres possíveis. E finalmente a aplanar o piso e assentar o parquet.

As galerias, medievais e renascença, foram assim refeitas radicalmente, com escadas de acesso e favoráveis condições de iluminação.

Para este efeito as janelas e portas foram convenientemente vedadas com gradeamento de ferro e vidro.

Do lado fronteiro, isto é, do norte, a reedificação recente, como disse, não foi geral. No rez do chão conservava-se um antigo lojão escuro, de paredes salitrosas e carcomidas e detritos de cousas inuteis, para ali atiradas. Pedaços de madeiras carunchosas, alfarrábios manchados de humidade e bulor, esterco de podridões de toda a especie.

O terreiro exterior e pátio interior, agora convertidos em jardins, eram calçados a calhau; e foram rebaixados 50 centimetros. Os primeiros degraus das escadarias completados. E até a fonte teve de ser recomposta.

Nesta resenha abreviada não deixarei de salientar, como exemplo de administração rigorosa e esfaimada, o arranjo da sala romana. Era a antiga cocheira dos bispos de Coimbra, de paredes nuas e barrotes a descoberto. Toda a obra de rebocar, estucar, corrigir a curvatura dos arcos, etc. importou em 300 mil reis. Com o auxilio da lisonja, que foi cedida pelo reitor da Universidade.

Bem sabia eu que o terreno, impregnado pela urina das parelhas precisava de camada impermeavel e exuladora, para impedir a propagação do salitre. Mas não tinha mais dinheiro!...

Por aqui se pode avaliar a escassez das circunstancias e a penúria dos recursos, para obra tão complexa.

No andar superior, logo de entrada o telhado do alpendre sudoeste estava demolido. As, varandas, de resguardo das escadas foram reintegradas, porque poucos balaustres restavam.

A sala contígua ao vestibulo, a que já me referi, faltava-lhe o tecto e foi forrada em almofadas, á maneira antiga.

Neste ângulo o madeiramento do telhado, de certo moderno, tinha sido ignaramente calculado. A construção defeituosa impelia violentamente a parede para fora e a cimalha começava a ceder. Era urgente acudir-lhe. O problema não era fácil, mas o arquitecto Silva Pinto, o orago das dificuldades, resolveu-o.

Na sala imediata o pavimento achava-se recurvado e abatido, porque a viga partiu e teve de ser refeito e nivelado.

Na grande sala, ao longo do edificio, sobre o arco de entrada,abriu-se a janela rasgada, idêntica ás outras, para maior claridade.

Os tectos mudegares, que da Sé Velha foram conduzidos para os baixos terreos da nova catedral, foram aqui belamente aproveitados.

Etc.,etc.

Fig.4 As colecções de cerâmica no Instituto de Coimbra, 1856

Fig.4 As colecções de cerâmica no Instituto de Coimbra, 1856

Concluídas as obras precípuas preparativas, sem as quais era impossível dar principio á ordenação efectiva do Museu, muitas outras foram mais tarde realizadas com vagar e tranquilidade, conforme os meios facultados.

Portanto, além das tarefas, que laconicamente venho anunciando, outras há de menor vulto, que passo em claro. E note-se que estávamos nos premilinares, no exordio desta função; só depois se daria principio á selecção, colocação e laboriosa arrumação dos artefactos; da maneira como se vê.

Fig.5 Exposição

Fig.5 Exposição "Educativa" no conceito de A. A. Gonçalves

Fig.6 Sala de

Fig.6 Sala de "Documentação Gráfica da cidade"

Fig.7 Sala de Escultura Barroca

Fig.7 Sala de Escultura Barroca Do lado do nascente não era menor o estado de desalinho esquálido. A livraria antiga sem tecto; estrume por todos os lados, poeiras condensadas e teias de aranha, etc.

Nesta altura devo registar um caso singular. Num acanhado cubículo, sem luz e lageado de tijolo, o bispo, que é de presumir fôsse o franciscano D. Fr. Joaquim Nazaré, dormia no chão! Por mais extraordinario que pareça! Via-se ainda o estrado em que assentava a enxerga, e girava sobre dobradiças, para entrar num encaixe, espécie de armário fixado á parede.

Ao lado uma pilheira para pousar candieiro, livros, etc., visto a alcova não ter capacidade para qualquer outro móvel.

Fanática maneira de compreender a humildade e a renuncia do fausto!...

Perto encontrava-se a escada arruinada que conduzia á tribuna da igreja de S. João, etc.

Tudo isto foi suprimido.

Depois de dezoito anos de silencio,= de tal forma a fatuidade me embriaga!= tenho a declarar que, se só agora me abalanço neste monótono estendal, não é para alardear serviços e prendas, a engrandecer-me no conceito dos conterrâneos, contemporâneos, ou póstumos. Nada disso! Tenho dispensado os gabos dos coevos, dispensarei igualmente os hosanas dos posteros!

Isto é um relato sumario, mas verdadeiro, de simples notas abreviadas, que podem ser uteis e proveitosas aos ideólogos noviços, que pretendam votar-se, em praticas de propaganda, ao apostolado de acção, de doutrinas incompreendidas…

Já voltarei a este assunto.

A complexa empreza, creio já disse, foi levada a efeito com milagres de economia. Como não dispunha de dotações, prestabelecidas ou creditos autorizados, os processos liturgicos e morosos de orçamentos e aprovações previas era impraticável. As obras corriam á mercê de solicitações e das eventualidades casuais dos dons aquiescentes da generosidade« oficial.

As cartas, de simples estampilhas, registos e telegramas, que escrevi, os pedidos que importunamente dirigi a toda a gente que neste país tinha representação social e politica, não tem conta. E as respostas que obtive eram, pela maior parte, especimens de brandura amena e deferência delicada e amável, com que era posto á porta da rua!...

Para a efectuação material da apropriação do edificio,= apressome a declara-lo, = tive o auxilio valioso de dois amigos: a opinião lucida do arquitecto Silva Pinto, que nunca me recusou a sua cooperação; e as quantias francamente abonadas pelo Rodrigues da Silva.

E ocasiões houve em que o Museu lhe devia quantias de certa valia (1).

Estes é que foram os experimentados amigos do Museu. Com eles me achei sempre nas circunstancias embaraçosas.

Quem tem suportado vilanias e insidias de cretinos, sabe avaliar a solidariedade dos dedicados. A ingratidão mais fere as almas agradecidas!...

E aqui ficam expostos, em termos rapidos, o que foi toda essa canceira preambular,m ingrata e ignorada, da organização do Museu, sem o apoio dos homens superiores e sem o bafo animador e vivificante de poderosos e argentarios.

Concluidos os trabalhos delineados, para a acomodação das cousas, seguiu-se a disposição das séries, muitas vezes alterada, quando a exiguidade do espaço o exige.
Essa está á vista, aproximadamente como foi concebida.

Os museus d’arte industrial não devem ser apenas exibições de raridades artisticas ! Devem abranger mais largos destinos:= escolas de ensinamentos para antiquarios e estudiosos de todas as categorias.

Tudo isto foi impulsionado pelo caloroso entusiasmo de convição e fé inabalável na influencia educativa, infalível e talvez fulminante, exercida sobre a depuração do gosto, em beneficio da cultura nacional…

Devaneios doutrinarios e desatinados, de visão supersticiosa e de sonambolismo! Monomanias desvairadas a correrrem atraz de ilusórios fantasmas!...

Neste lance de exame retrospectivo, ocorre-me a anedota do pintor Degas. O Lição de dança, que lhe pagaram por 400 francos, foi ultimamente vendido em leilão por alto preço. Interrogado acerca da impressão que o facto lhe deixava, respondeu:= Como um cavalo que ganhou o premio nas corridas de Epson!

Esta conformidade é invejável!...

Por mim, = chegado ao termo da jornada, = depois de desenganos e perfídias de birbantes despresiveis , sinto que malbaratei o meu tempo, e o meu desinteresse, inutilmente e sem vantagem para a boa causa que julgava missionar e servir!

Reconheço que desperdicei a vida a pensar em utopias e inépcias, com a leviandade de quem erra uma operação de arimética!

Anos consecutivos de cuidados e fadigas absolutamente gratuitas! Sem remuneração, abnegadamente liberto de calculos de ambições futuras, ou vislumbrados prémios compensadores!...

Para que tantas canceiras e contrariedades?...

Se ninguém aproveitou com isso!?...

NOTA FINAL – Os devotos assiduos dos primeiros dias depressa cançavam e levavam com eles os ruidosos profectos de cooperação scintilante!...

Eu bem os ouço gorgear pelos jornais, --como rouxinóis de barro!—em arrombamentos de estétasd e de críticos!

Assim, esquecido. No completo abandono de todos os dias, me tenha pungido em desenganos de decepção, de despeito e de remorsos…

E, se só agora falo, é porque só agora cessaram os escrupulosos melindres de coerência que me impunham silencio:---visto que me foi dada a isenção do cargo de director.

Junho de 1929

(1)--- Aqui só me refiro ao periodo inicial. Posteriormente, ao organizar as colecções, encontrei amparos e serviços não esquecidos. "