Hoje, 31 de março, para assinalar o Dia Nacional da Memória das Vítimas da Inquisição (Resolução da Assembleia da República n.º 20/2020), escolhemos para si a pintura a óleo sobre tela ‘Cena da Inquisição’ (MNMC 8212), cujo autor, António Augusto Gonçalves (1848-1932), foi o fundador e primeiro diretor do MNMC.Estabelecida a Inquisição em 1536, pela bula Cum ad nihil magis, do Papa Paulo III, o Tribunal do Santo Ofício seria instituído em Portugal, por D. João III, o Piedoso, nos bispados do Porto, Lamego e Coimbra, em 1541. Nesta cidade, ocupou o edifício do real Colégio das Artes, cedido pelos jesuítas, em 1556, até à extinção da Inquisição em 1821.

A pintura pretende elencar alguns dos momentos de tortura infligidos pelo Tribunal do Santo Ofício, num registo que, desde o piso térreo, com a fogueira a ser ateada, sob a supervisão dos inquisidores, passando por pisos intermédios, em que se observam instrumentos vários de tortura, tem o auge no último piso, onde um homem está a ser enforcado.

A composição, em vários planos que se cruzam e a que se acede por escadarias e passadiços revela que o autor conhecia as famosas pranchas (gravuras a água-forte) ‘Carceri d’Invenzione’ (1760-62), do veneziano Giovanni Battista Piranesi (1720-1778) e que delas retirou inspiração. Tal não foi tão feliz no que toca à emoção, pela inquietude que o tratamento da luz (e sombra) imprime às suas gravuras, pela vertigem das perspetivas manipuladas e da sequência de planos, pela intemporalidade das figuras humanas.

Este relato histórico pintado por António Augusto Gonçalves recorda-nos um momento em que muitos, de ambos os sexos, de diferentes idades, credos e classes sociais, foram injustamente dizimados; as gravuras de Piranesi revoltam-nos! E é de ação e entendimento do que é nefasto ao ser humano que se trata por estes tempos.