Introdução

Lugares de preservação e exposição do património cultural da humanidade, os Museus contribuem para ampliar a “riqueza da experiência humana colectiva".

A importância do Museu não deve ser medida tanto pelas colecções que possui, mas pelo que faz com o acervo de que dispõe. Segundo a Associação Americana de Museus, estas instituições “[...] devem comunicar a essência das ideias, difundir conhecimentos, fomentar a curiosidade e promover a sensibilidade estética”.

A definição adoptada pelo ICOM em 1974 aponta para que o Museu seja “ [...] uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da comunidade, que adquire, conserva, comunica e apresenta com fins de estudo, educação e deleite, testemunhos materiais do homem e do seu meio”.

Ao longo do Século XX, o alargamento da noção de Museu e de Bem Cultural veio beneficiar o campo da Museologia. Colocou a questão central das escolhas do Património, alargou o espaço em que se inseriam tradicionalmente estas instituições e relativizou os conceitos quase imutáveis inerentes à condição do Museu.

Com a Nova Museologia, o sentido do Museu não se centra unicamente no objecto mas valoriza igualmente o sujeito que o frequenta. Como tudo o que se passa em seu redor, o Museu tem de ser dinâmico e tem de saber acompanhar e incorporar as mudanças que ocorrem com maior celeridade na sociedade contemporânea, sem, no entanto, perder a sua identidade.

1. Situação do Museu Nacional de Machado de Castro

O Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC) vive uma etapa de profunda remodelação, quer ao nível do seu edifício fundacional, quer igualmente nos seus aspectos museológicos e museográficos.

Serão acrescentados novos edifícios, um acolhendo os serviços administrativos e técnicos (com a biblioteca incluída) e outro com áreas de oficina, de reserva e de extensão da exposição permanente.

No edifício matricial, estarão os diversos serviços de apoio aos visitantes (lojas, WC’s, recepção, espaços de repouso e cafetaria), duas salas de exposições temporárias, o auditório – que funcionará no espaço da Igreja de São João de Almedina – a área reservada ao serviço educativo e as diversas salas e espaços onde se irão expor as várias colecções do acervo.

Neste sentido, o Serviço Educativo (SE) vai definir a sua missão, estabelecer metas e objectivos, a partir de estratégias adequadas à sua vocação e aos públicos por ele servido.

2. Missão do SE

Espaço de memória e de identidade de uma parte do património cultural e artístico Português, o MNMC é uma instituição que cumpre uma missão definida pelas tarefas de recolha, inventário, estudo, preservação, exposição e divulgação do acervo que se encontra à sua guarda.

No caso específico do Serviço Educativo, assume especial relevância a forma com se transmite a essência de conceitos e ideias, a difusão de saberes, ao mesmo tempo que se desperta a curiosidade e se promove a sensibilidade estética dos diversos públicos que frequentam o Museu.

O papel desempenhado pelo Serviço Educativo do MNMC passa pela comunicação e divulgação das actividades que se realizam nesta instituição, quer ao nível da exposição permanente, quer das temporárias, para além de outras actividades complementares de enriquecimento dos diversos públicos que frequentem o Museu.

3. Método do SE

De acordo com Maria del Carmen Valdéz, “ o museu é uma instituição cultural intrinsecamente educativa, o que não significa que tudo o que realiza seja expressamente pedagógico [...]”. Neste sentido, a comunicação e a educação no Museu deverão ser concebidas essencialmente como forma de alimentar a capacidade crítica.

A relação Museu/Escola procura estabelecer uma complementaridade entre a educação formal, assegurada pela escola, e a não formal, de que se ocupam os Museus. No entanto, tendo a realidade mudado, actualmente insiste-se muito no conceito de educação ao longo da vida.

Metodologicamente, o SE procura fundamentar-se numa perspectiva construtivista de aprendizagem não formal, recorrendo a uma forma de comunicação centrada numa pedagogia inclusiva, participativa e não tanto dirigida, incentivando igualmente a ludicidade na concepção das iniciativas educativas. Processo criativo de comunicação que, mais do que apenas seduzir, tem por finalidade cativar.

Os agentes do serviço educativo irão desempenhar o papel de mediadores, numa relação dialogada de fonte e gerador de conhecimentos, a partir de um activo processo de comunicação entre todos os intervenientes.

No conceito “learning by doing”, onde o fazer deve suportar o pensar, é considerado fundamental o manuseamento dos objectos (réplicas) para a estruturação do pensamento e do desenvolvimento cerebral – ( “hands on”, “minds on”).

Com a teoria construtivista pressupõe-se que o conhecimento vai sendo construído por cada um dos sujeitos, na sua relação directa com o ambiente.

O modelo comunicacional pode auxiliar esta proposta, já que considera o Museu como um espaço de comunicação por excelência, pois pode usar e potenciar todos os outros meios comunicativos.

É nossa convicção que o processo educativo resultará da conjugação de todos estes modelos e não passa apenas pela valorização de conteúdos cognitivos, mas igualmente pela sensibilidade e pela emoção ( valorização da noção “hearts on”).

Para Susana Gomes da Silva, a interpretação, como uma das fases da comunicação, “ [...] é um processo mental levado a cabo pelo sujeito [...], implicando o desenvolvimento de competências de análise, de crítica e de síntese capazes de enquadrar o contínuo processo de modificação, adaptação e extensão que a aprendizagem ao longo de toda a vida implica.”

4. Linhas programáticas do SE

Em nossa opinião, é essencial efectivar a articulação com os demais serviços do Museu. A ideia não é a do SE ser um reprodutor passivo da programação do Museu, mas que tenha um papel activo na concepção e decisão das suas linhas programáticas.

A nossa aposta centra-se sobretudo na programação de visitas e actividades dirigidas ao ensino pré-escolar e básico (até ao 9º ano), com idades compreendidas entre os 3 e os 15 anos, diferenciando evidentemente o nível de abordagens para cada nível escolar e sua respectiva faixa etária. Contudo, pontualmente poderão ser programadas outras propostas dirigidas a diferentes públicos, nomeadamente ao público universitário ou ao sénior.

A segmentação destes públicos reside na ideia de aqueles poderem constituir os frequentadores mais habituais e numerosos do Museu, reservando para mais tarde os outros grupos, quando estes se encontrarem consolidados.

No campo da educação museal estão pensadas diversas acções, nomeadamente na divulgação do futuro Museu junto das escolas com o recurso à Maleta Pedagógica e aos projectos “Museu Portátil” e “Museu em Construção”, ou ainda a abertura de visitas condicionadas às reservas e às oficinas de conservação e restauro do Museu. Também algumas das exposições temporárias, promovidas pelo Museu, poderão ter extensões educativas.

5. Objectivos do SE

Na elaboração do plano de acção do SE, foram considerados os seguintes objectivos gerais:

Divulgação da arte portuguesa, com especial destaque para a componente de arte sacra e a sua conexão com as tendências regionais, nacionais e internacionais, através de mediações que promovam a colecção permanente, as exposições temporárias e outras realizações da instituição com os seus vários públicos.

Criação de um programa dinâmico e diversificado, cujas iniciativas valorizem a colecção do Museu e outros eventos temporários, ao mesmo tempo que se procura apostar na consolidação dos públicos habituais e na captação e formação de outros, com o intuito de estabelecer uma relação de fidelização e de proximidade com todos os seus visitantes.

Contribuição para a aprendizagem e compreensão dos fenómenos artísticos, concebendo programas de formação que privilegiem a relação Museu/Escola, com destaque para os vários graus de ensino e para os principais agentes do sector educativo, podendo, outras propostas diferenciadas, serem extensivas ao público universitário e sénior.

Construção dum espaço de debate e de diálogo, essencialmente, em torno da evolução da arte sacra, no contexto mais alargado de toda a sociedade portuguesa, estabelecendo pontos de contacto com outras formas culturais e de expressão artística, procurando, sempre que possível, uma aproximação ao mundo contemporâneo.

Conclusão

Na linha de pensamento de Sofia Lapa, julgamos que as actividades e projectos educativos nos Museus revelam-se oportunidades para desenvolver a imaginação e a reflexão.

Por outro lado, quanto mais divertida e animada a actividade no Museu, mais efectiva ela se tornará.

As actividades educativas nos Museus não deverão repetir os métodos utilizados noutros contextos de aprendizagem. No entanto, pode revelar-se importante conhecer os programas curriculares, dado que as visitas de estudo têm por objectivo desenvolver ou aplicar conhecimentos prévios.

Mesmo que partam de um modelo bem definido, todas as actividades devem ser diversificadas e prever algum grau de adaptabilidade às diferentes circunstâncias.

As actividades devem conduzir a uma vivência integral e partilhada, envolvendo a relação de cada indivíduo com o espaço, com o outro e consigo. Este processo aberto e participado proporcionará múltiplas experiências, cujo resultado se irá reflectir em aprendizagens significativas e na construção de memórias duradouras.

Em jeito de conclusão, adverte-nos a sabedoria milenar chinesa que:

“Se me disseres
eu esquecerei.
Se me ensinares
eu aprenderei.
Se me envolveres
Lembrar-me-ei.”

Fernanda Alves

Pedro Miguel Ferrão